ih, esqueci (que bom)
por Marianne Piemonte
O neurocientista Iván Izquierdo defende que o esquecimento é fundamental para a sobrevivência
"O aspecto mais notável da memória é o esquecimento." A citação provém do mesmo neurocientista que identificou a existência das memórias de longa e curta duração. Contraditório? Iván Izquierdo garante que não.
Aos 68 anos, o autor de "A Arte de Esquecer" (ed. Vieira e Lent, 114 págs., R$ 29) está aposentado e continua dirigindo o Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS. No seu time, cerca de 200 colaboradores, distribuídos em mais de 13 países. Argentino, naturalizado brasileiro em 1981, ainda carrega o forte sotaque portenho e não resiste a uma referência conterrânea para explicar a impossibilidade de uma memória perfeita. "Funes, o memorioso, precisava de um dia inteiro para se lembrar do dia seguinte. O que tornava inviável tais lembranças", diz Izquierdo, sobre o personagem de um conto do escritor Jorge Luis Borges (1899-1986).
Em entrevista à Revista, ele diz que o esquecimento é fundamental para a perpetuação da espécie -do contrário, ao se lembrarem da dor do parto, as mulheres não teriam mais filhos, ou simplesmente passaríamos a vida fazendo coisas que não nos interessam. Ele mesmo garante que já se esqueceu da eliminação da Argentina na Copa. "Me lembrarei apenas de que foi um jogão."
Por que esquecer é tão importante para a memória?
Nos esquecemos da maior parte das informações que memorizamos, mais de 90%. Temos uma memória de trabalho que guarda as coisas por poucos segundos. O exemplo mais imediato disso é que você só se lembra da terceira palavra da minha frase anterior. O resto simplesmente desaparece e tem de desaparecer, senão não guardaríamos o que vem depois. Temos outras memórias, como a de curta duração, que permanece por cerca de seis horas e torna possível entender uma aula, um filme, ler um livro. A de longa duração leva até 12 horas para ser formada e pode permanecer por décadas. Há ainda outras que simplesmente se extinguem por falta de utilização, e esse é um dos fundamentos usados em terapia para estresse pós-traumático.
Como isso é feito?
Todas as memórias são associativas. Entendemos sinais. Por exemplo: no restaurante há comida, ou o barulho de explosão é sinal de perigo. Assim, desassociamos o sinal da causa. Ensinamos novamente que um tal barulho não está associado a uma bomba, mas sim a alguma coisa boa. Essa técnica é chamada de extinção. Estava bem esquecida nos Estados Unidos, mas, com os atentados do 11 de Setembro, voltou a ser bastante utilizada pelos psicanalistas de Manhattan com as pessoas que estiveram perto ou nas Torres Gêmeas. De forma simples, você mostra as fotos daquele lugar para essas pessoas, mas demonstra que agora elas estão em segurança. Elas passam a desassociar as imagens do terror.
Então, é saudável esquecer as coisas?
Sem dúvida, chega a ser fundamental para a perpetuação da humanidade. Afinal, se a mulher se lembrasse da dor do parto não teria o próximo filho. Ela se lembra da cara da parteira, do primeiro choro do bebê, mas a dor é a única sensação da qual não nos lembramos de forma completa. Tente. O mesmo acontece com quem foi torturado. No momento em que se percebe a dor, o cérebro libera substâncias, como a betaendorfina, que causam o esquecimento, por isso não há tempo para que seja gravada na memória.
Então se quisermos nos esquecer de uma situação dolorosa ou de uma pessoa podemos tomar uma pílula de betaendorfina?
Isso não é possível. Nem naquele filme "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", em que se apaga uma pessoa para estancar a dor do fim de um relacionamento. Só é possível apagar determinados fatos quando a memória está em formação. Acontece quando lutadores de boxe são nocauteados, por exemplo. A memória não é gravada porque foi cancelada enquanto estava em formação. Eles tomam o golpe e se esquecem de como foram parar no vestiário. Outro exemplo bem comum são os acidentes de carro. As pessoas se esquecem do que aconteceu no momento exato da batida e "despertam" segundos depois.
Existe uma maneira menos "acidental" de esquecer?
Do que dar um golpe na cabeça na hora da gravação? Sim, sem dúvida. O cérebro utiliza um processo chamado de repressão e o exercitamos diariamente. É um esforço consciente ou inconsciente para esquecer de fatos, eventos ou situações ruins, indesejadas ou humilhantes. Se não a praticássemos, não dirigiríamos diariamente de casa para o trabalho. Se não nos esquecêssemos dos perigos que nos assustaram durante o caminho, daquela fechada, ou do trombadinha que tentou nos assaltar, não sairíamos mais de casa.
Por que é mais difícil esquecer memórias afetivas?
Essas são as mais lembradas porque na hora da gravação são estimuladas vias nervosas que respondem às emoções, e então são liberados neurotransmissores (noradrenalina e dopamina) sobre as células que formam a memória. É um processo bioquímico que faz gravar ainda mais e melhor aqueles momentos.
Excesso de informação atrapalha a memória?
Atrapalha a invocação e formação da memória, mas a memória de trabalho, aquela que dura apenas alguns segundos, não fica abarrotada, porque o que é demais desaparece. Quando esse sistema falha, o nome da doença é esquizofrenia. O indivíduo alucina porque passa a não perceber corretamente a realidade.
Quando esquecer é patológico?
Quando se esquece coisas muito habituais, como o nome dos objetos do dia-a-dia, o nome de pessoas e assim por diante. Em casos mais graves, de pacientes com mal de Alzheimer, apaga-se completamente da memória o rosto dos filhos, por exemplo.
E os brancos?
Não têm significado patológico, em geral. São causados por ansiedade e estresse. Nesses estados, a glândula supra-renal produz corticóides que são levados pelo sangue para o núcleo cerebral da amídala (localizados no lobo temporal). Lá, interferem nas sinapses (ligações de neurônios) envolvidas na evocação das memórias.
Existe déjà vu?
Chama-se assim a identificação falsa de algo que um sujeito vê ou sente como se já tivesse experimentado. É mais um dos exemplos de que há memórias falsas. A pessoa imagina que se lembra de situações que não existiram. Faz uma associação fantasiosa e a torna vívida. É muito comum, principalmente nas pessoas idosas. Conheci uma, por exemplo, que achava que havia vivido na Rússia porque tinha visto muitas fotos de lá e as misturava com a realidade. Mas não há risco de que os que têm esse episódio de falsa memória passem a viver na fantasia em tempo integral, nem de isso virar patologia.
FALSO
A perda de memória é diretamente proporcional à idade. Ao contrário do que se imagina, 70% das pessoas com mais de 70 anos não têm problemas de memória
VERDADEIRO
Mente ativa e sociabilidade preservam a memória. O único remédio capaz de manter a memória saudável, segundo Izquierdo, é a leitura, aliada a uma vida social saudável. De nada adianta ler e não ter com quem trocar suas percepções e gostos